Ser Poeta | Florbela Espanca | Vila Viçosa

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

MINHA TERRA

A J. Emídio Amaro

Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa…

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha… a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu…
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada…

Truz… truz… truz… Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite…
Terra, quero dormir… dá-me pousada!


[ Citado em => Vila Viçosa | Que Ver e Fazer ]


FLORBELA ESPANCA: Dados Biográficos

Poetisa de vida e escrita intensa, FLORBELA ESPANCA legou-nos uma obra de grande inspiração carregada de feminilidade, erotismo, panteísmo, patentes em muitos de seus poemas bem conhecidos:

AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

SE TU VIESSES VER-ME…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

  • Nasceu a 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa, onde teve uma infância feliz
  • Frequentou o ensino básico na terra natal, onde teve uma infância feliz, entre 1899 e 1908
  • Ingressou no Liceu de Évora, onde se manteve até 1912
  • Casou pela primeira vez em 1913, tendo vivido mais duas experiências matrimoniais mal sucedidas e outras paixões infelizes
  • Em 1916, inicia a sua colaboração como jornalista em vários jornais e revistas
  • Em 1917 conclui o curso complementar de Letras e inicia estudos na Faculdade de Direito de Lisboa
  • Em 1920, interrompe os estudos de Direito
  • Abalada pelos abortos naturais e pela frustração do desejo de maternidade, debilitada pela doença (edema pulmonar, neurose galopante), pela morte do irmão Apeles (em 1927), entrou em depressão (patente em poemas como os que reproduzimos abaixo), não resistindo à terceira tentativa de suicídio no dia em que completava 36 anos de idade
  • Faleceu a 8 de Dezembro de 1930, em Matosinhos

A UM MORIBUNDO

Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…

O que há depois? Depois?… O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!…

À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera,… quebra-me o encanto!

FLORBELA ESPANCA: Bibliografia

  • Livro de Mágoas (1919)
  • Livro de Soror Saudade (1923)

Postumamente foram publicadas:

  • Charneca em Flor (1931)
  • Juvenília (1931)
  • Reliquiae (1934)
  • Sonetos Completos (1934)
  • As Máscaras do Destino (1931, prosa)
  • Diário do Último Ano (1981, prosa)
  • O Dominó Preto (1982, prosa).

Parte da obra de FLORBELA ESPANCA pode ser consultada em
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.do .

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