Islândia | Postal de Viagem

Caros Amigos,

Desde que a iniciámos, em Reykjavik, já vai longa esta demanda pela ilha magnífica e o guia vai já desfiando o último terço do rosário de informações destinadas aos turistas. Dos anteriores, terão ficado alguns registos, poucos, que neste pedaço de Natureza Dinâmica do Fogo e do Gelo que é a Islândia, sobrevivem e dominam sobre todas as outras, as memórias visuais.

À observação sobre a ausência nos roteiros turísticos de monumentos e arte religiosa comuns nos roteiros de outros países, o guia esclarece que os islandeses não são habituais frequentadores de igrejas e que adoram sobre tudo o ar livre e a natureza. Onde nos recentramos.
O autocarro vai deslizando na serenidade do asfalto e evoluindo agora por entre uma paisagem do outro mundo sem vestígios de vivalma.
O silêncio facilita que uns quantos passem pelas brasas, outros, como Pessoa, achem que “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, e os restantes olhem a paisagem com meditabunda circunspeção.

É provável que a vizinhança do círculo polar ártico, as frentes frias, as temperaturas polares, ajudem a arrefecer o fervor religioso dos islandeses; é certo que durante uma boa parte do ano não é sequer convidativo sair de casa: a imaculada alvura do gelo cobre como um grosso manto branco a negra textura das escorrências vulcânicas; terras negras de lava dormente à superfície sobre um caldeirão de magma fervente nas entranhas pronto a explodir contra o céu azul quando menos se espera; crateras que mais parecem poços fundos nas profundezas do inferno. Um habitat, portanto, impróprio para os deuses.

Os cientistas vêm lembrando que uma boa sesta pode fazer milagres, no que foram religiosamente seguidos pelo autor de Por Quem os Sinos Dobram que a praticava com metódica regularidade. Acorda-se rejuvenescido, revigorado, com a vivacidade de um vulcão ativo, a branca dolência do glaciar, o frémito da cachoeira a jorrar energia e criatividade sob o sol da meia-noite ou a mágica luminescência da aurora boreal.

Talvez os islandeses tenham antecipado a prospetiva de Peter Atkins e dispensado deus para outras tarefas noutros lugares, antes que “a ciência explique tudo o que ainda é desconhecido”. 
Na Islândia, é a natureza que dita o destino das gentes; as gentes retribuem-lhe com devoção respeitosa numa aliança sagrada sem receios irracionais ou ritualizações fúteis.

Sob os nossos pés, as placas tectónicas da Eurásia e da América do Norte vão-se afastando ao ritmo do crescimento das unhas (que o tipo do lado, à míngua de cálcio, tenta contrariar como pode!).
O que nos concede, a um tempo, a dimensão de omnipresença divina, ou, mais humildemente, de terrena ubiquidade, que é ter um pé na Ásia e outro na América, enquanto não aterramos com os dois na Europa.

Até lá, vamos derretendo o gelo dos tempos com o fogo da amizade no abraço consentido à distância,

AdeV

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