Reiquiavique: Islândia | Postal de Viagem

Caros Amigos,

Há quem ache que é da condição dos indivíduos desafiarem-se permanentemente, e veja-se como levam isso à letra desde o princípio. Desafiar o destino, desafiar a natureza, ir sempre mais além, superar-se, bater recordes, marcar pontos no reduto alheio, desafios não exclusivos de ronaldos comuns.
Cuidando de não malbaratar créditos por mãos alheias, faço o que posso: eis-me, na capital mais setentrional do mundo, REIQUIAVIQUE, na Islândia, vai para três dias.

A fazer fé nas sentenças da trupe mediática que prospera no cibermundo da blogosfera, no nicho de fantásticos viajantes influenciadores de viajantes, não poria cá os pés. Ou, como Armstrong na lua, poria a medo um pé, depois o outro, para uma pequena volta sobre o solo vulcânico de REIQUIAVIQUE, e desandava o quanto antes. Isto, se as professorais sentenças que decretam que um dia chega e sobra para conhecer a capital da Islândia, fizessem jurisprudência. Ou, até mesmo, se o mais epidérmico dos medos, de súbito, virasse cagaço… São mais de uma centena os vulcões ativos por estas paragens.

Entre dois voos, com um pé tremido em terra e outro hesitante no ar, os ditos influencers capturam à escala na distância do aeroporto, duas ou três fotos, retocam-nas com umas quantas palavras, embrulham-nas num pacote agradável aos olhos dos motores de busca, despacham tudo a grande velocidade para a cibernuvem, e ei-los aliviados a inscrever no cardápio do conhecimento virtual a sabedoria de mediáticas prestidigitações que lava mais branco sem escrutínio.

Burocrata-Reykjavik

Claro que REIQUIAVIQUE não é Lisboa. Não tem a luz e o sol de Lisboa. Não tem pastéis de Belém. Não tem o 25 de Abril na ponte sobre o Tejo. Não tem as marchas e as noivas de Santo António. Não tem o Hospital de São José. Não tem o Poço do Borratém nem o Poço do Bispo nem a Mouraria. Nem mata-mouros. Não tem carros e dejetos nos passeios. Não tem a agitação e a bagunça de Lisboa.
REIQUIAVIQUE tem auroras boreais e sol da meia-noite e lagos e fiordes e glaciares e vulcões para dar e vender. Tem cidade, sociedade e energia limpas e vontade de as conservar assim. Tem organização e justiça, e o calor discreto do chá a temperar o frio do ar. Tem a arquitetura colorida com as tradicionais casas de madeira e a arrojada modernidade do vidro. Tem Faxaflói, a fantástica baía debruçada sobre o Atlântico, os montes, montanhas e picos em redor. E a ilha Videy, no meio, a olhar deslumbrada tudo isto.
De modo que, até a corrente quente do Golfo faz questão de passar por cá muitos dias.

Para onde quer que vá, há uma ambivalência que me persegue e de que não me livro com facilidade: a vontade de sair quando chego e a de regressar quando estou fora, mesmo que o racional se esforce por me demonstrar que fico bem por aqui.

Parecendo certo que religião e paixão trilham caminhos paralelos que podem levar aos mesmos excessos, esse é provavelmente o preço a pagar por um ateu que, à míngua de deuses, aponte a sua crença às ardilosas manhas dos homens.
O que não vem nada a calhar para quem acaba de se apaixonar por REIQUIAVIQUE.

Com o calor vulcânico da amizade num derretido abraço magmático,

AdeV

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