Turma de filosofia: mimesis

Para P. R. Cunha
(Em jeito de plágio, sem meter a foice em seara alheia)

Max chegou uns quantos minutos atrasado. Com passos lentos e um tanto arrastados. O que, pensando bem, tem vindo a acontecer com inusitada frequência. Ele que fazia questão de parecer um pêndulo, com movimentos exatos e rigorosos como os de um relógio suiço, e tão pontual como o mais pontual dos britânicos. E que sempre se mostrara firme, ativo, determinado e envolvido com o seu trabalho. Questionava-se, agora, sobre o exato significado disso. Talvez as aulas o viessem empolgando menos. Sim, talvez seja isso. Sentia que todo o esforço feito para envolver os alunos nessa empreitada épica da aquisição e descoberta de conhecimentos e saber não tinha neles qualquer ressonância. E, nele, nenhum eco.

Num assomo de reiterada esperança, de quem não desiste, decide-se, sem mais delongas, com entusiasmo, por uma reflexão quase lúdica sobre o jogo da Razão e da Emoção, de como se influenciam mutuamente, como são igualmente estruturantes no desenho da personalidade, fundamental para crescermos saudáveis e capazes de decisões informadas e seguras, e de como a globalização, a internet, os media, os sistemas de informação e comunicação, ameaçam a capacidade de nos emocionarmos, as nossas competências relacionais, a capacidade de permanentemente nos interrogarmos e questionar o sentido de existirmos.

Nem uma reação, sequer um esgar, um vislumbre de curiosidade ou emoção, uma arremetida espontânea ou uma mera questão a propósito. Nenhum eco.
De braços caídos, Max parece irremediavelmente derrotado por uma mal sucedida experiência de jubilação, decidido como está a “não fazer parte de nada disto”.

Lá do fundo, uma voz quase metálica num rosto mimético, que Max não conhecia, sorri com os olhos a dançarem mecanicamente nas órbitas elípticas enquanto confessa o seu  gosto por estas temáticas e o propósito de nelas participar ativamente, interessada como está em desenvolver competências de relação, exercitando a sua inteligência emocional, tal como fizera com o aprimoramento do seu raciocínio.

Ao toque metálico da campainha, a sala esvazia-se num ápice.
Restam Max e a surpreendente jovem desconhecida.
Vejo que é nova por cá, como se chama, interessou-se Max.
Sofia, Sofia Spectrum, responde solicitamente a jovem.
Spectrum, espanta-se Max.
Sim, Spectrum, em homenagem ao meu avô.
Despediram-se, Até amanhã.

– Aguarela de Viagens

2 thoughts on “Turma de filosofia: mimesis

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  1. Caro Paulo,

    Agradeço ao “estranho espécime tropical” a elegância, a dedicatória, as gentilezas e a arte de me emocionar com a autenticidade e o talento da sua escrita.

    Também, o susto fantasmagórico, pela sugestão de releitura de um naco notável de literatura concentrado no ato de uma Farsa – O Doido e a Morte, de Raul Brandão. (http://www.geocities.ws/djeatonlisbon/odoido/aaanewdoido.html)

    (Ainda, não me ter processado pelo plágio assumido!).

    Grande Abraço

    Gostar

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