Postal do Egito

Estimado Amigo,

Prestes a concluir o périplo por terras do EGITO, predispus-me, antes do regresso, a um retiro retemperador no deserto em busca de oásis desconhecidos.
Atenta a minha tentação de fugir do deserto como o diabo foge da cruz, asseveram-me que um retiro por entre dunas e areias, pode ser, não apenas uma bênção dos deuses como uma experiência a roçar o divino. O que parece credível, tendo em conta as vozes dos oráculos nos recessos da minha fé e a miríade de deuses que  povoam estes lugares.
Bem vistas as coisas, antes mesmo das Tábuas da Lei e de Moisés, e de Abraão, e de Maomé, já os egípcios haviam escrito o Livro dos Mortos e criado mais deuses que pirâmides e faraós.
Assim no meio do nada, com a areia solta sob os nossos pés, o deserto é uma grande cápsula de estrelas brilhantes sobre a nossa cabeça que voga à velocidade do pensamento com a destreza da imaginação. Parte-se (ou encapsula-se) com a branca alucinação de não pensar em nada. Regressa-se com a filosófica inquietação de não ter remexido tudo. Como numa tempestade de areia. Ou numa explosão de estrelas.
Talvez tudo tenha começado com o Big-Bang. E acabado, com o Criador, ao sexto dia. Ou um dia antes, se afinal, tiverem sido os homens a criar os deuses à sua imagem e semelhança. O que nem se afigura do outro mundo, se nos lembrarmos que Bes, o deus anão que tocava harpa para sossegar as crianças, desassossegou meio mundo quando degenerou em monstro demoníaco da corrupção. Que conhecemos em Portugal. Como no Egito. Ou em qualquer outro lugar, onde narcisos e faraós se masturbem numa vozearia orgíaca, repetindo até ao convencimento e à conversão “Eu sou deus!”, “Eu sou deus!”.
Agora que criamos os deuses levamos a vida toda a percorrer o caos atrás da eternidade. A caminho da Terra Prometida. Carregando a questão primordial de todas as cosmogonias a desinquietar-nos o espírito numa mundividência bipolar. O princípio e o fim. O bem e o mal. A ordem e o caos. A quietude e a fúria. O silêncio e o ruído. O amor e o ódio. A paz e a guerra. A tempestade e a bonança. Yin-Yang.
E mesmo que tudo pareça tender para a perfeição, como em Mozart, a Lei de Murphy retinirá como um badalo na nossa cabeça tocando o miserere! Tao-Tão.
Por estes dias, entre o Deserto Branco e o Deserto Negro, f
ui tuaregue em 4×4, beduíno sem transumância, comprador de sonhos, carregador de miragens, mercador de matéria-prima a escapar-se por entre os dedos numa mão cheia de nada. Um deserto de oásis. Com o céu por perto e o inferno há mesma distância… Não há como nos pormos em bicos de pés sem nos atolarmos na areia movediça.
Quem, vindo da planície fértil do Nilo, mergulhe no grande deserto egípcio, não deixará de registar no bloco de Notas de Viagem, como Eça de Queiroz: “Contraste extraordinário e profundo: O Egito é um imenso celeiro e um imenso sepulcro“.
E, porque temos de regressar, o pêndulo de areia fina do relógio sobre a escrivaninha, lembra-nos com rigor astronómico, que na hora do eterno retorno nem mesmo os deuses podem nada contra o tempo.
De mim para si, com o calor da amizade e o ROTEIRO DO EGITO.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: