Postal do Cairo

Caro Amigo
Jamais se aventure a conduzir nas ruas do Cairo. Na primeira rotunda, ficaria como fatia finíssima de fiambre entalada em carcaças de metal. Provavelmente surdo como uma porta à conta do monstruoso chinfrim de buzinas. Imobilizado como numa pista de carrinhos-de-choque a abarrotar de aselhas. Talvez a resfolegar-se de raiva e a debitar impropérios. Para nada. A mistura do vómito palavroso com a pulsão gestual da fera enjaulada, não é, nesta terra quente de África, ciência que se cultive. Não se verbaliza. Não se barafusta. Não se esperneia. Não se gesticula tresmalhadamente. Apita-se. Piiiii pii piii pipi pi… numa linguagem cifrada de Morse, comum em regime militar.
Juntemos agora à orquestra metálica de buzinas, o coro de vozes dos almuadens soltando ladainhas de convite à oração no alto dos mil minaretes apontados ao único céu do Cairo. Ondas de clamor e chamamento a varrer a cidade, reclamando o recolhimento e o silêncio por entre a agitação e o ruído. Não é a guerra anunciada. Também não é a paz prometida. É o inferno das trombetas encenando no paraíso das preces a união que só a morte sabe não ser para toda a vida. É a Cidade dos Mortos a contemplar a azáfama dos vivos no jogo da sobrevivência a prometer a eternidade e uma catrefa de virgens.
Para lhe dar uma ideia, se lha pudesse dar a esta distância e se uma ideia fosse bastante para ter uma noção da realidade, é como uma enxurrada. Ou talvez mesmo um dilúvio, antecipado pelos cristãos coptas que no séc. IV construíram aqui a Igreja Suspensa com a forma de uma Arca de Noé. Lugar seguro até à invasão das areias vindas na agitação inclemente das tempestades do deserto, nada que se compare ao assédio inocente dos pequenos grãos a cocegar numa praia de nudistas. Por muito que por aqui se tape, e tapa-se, não há trapos que sustenham tamanha intrusão, mesmo tapando-se tudo.
Um banho assim, de poluição e areia, que encontramos por aqui com abundância, teria sobre a espiral da sua hipocondria o efeito milagroso de uma benção ou de uma ablução redentora.
Abdullah, estudante de enfermagem, partilha com entusiasmo juvenil o seu desejo de um dia trabalhar na Europa, quem sabe no Reino Unido, mas de preferência no Canadá. Será, talvez, mais fácil “o camelo entrar pelo buraco da agulha” do que conseguir um visto de saída. Ou, talvez almeje arrebatar um coração forasteiro rendido aos encantos de um príncipe egípcio, e embarcar nele para a terra prometida!
A cidade é, na verdade, um imenso oásis de contrastes num vasto deserto a perder de vista. Parece europeia, sendo africana. Moderna, permanecendo antiga. Cosmopolita e rústica. Uma babilónia de línguas, culturas e religiões. Um alfobre de história e civilização a perder de vista. Um museu a céu aberto com tanto por revelar.
Quem soubesse decantar do coro infernal de buzinas e ladainhas, a partitura celestial da melodia, iluminaria tanto os céus do Cairo quanto Aida de Verdi encheu de luz, magia e cor as Pirâmides de Gizé.
Com um abraço faraónico, deixo-lhe o  ROTEIRO DO CAIRO.

 

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