Postal do Nilo

Cara Amiga,

Se em vez de escrever-lhe sobre papiro a discorrer como esteira de seda macia sobre o caudal sereno do rio, ousasse uma aguarela de azul límpido entre o verde vivo das margens férteis e o amarelo-avermelhado do deserto a perder de vista, dar-lhe-ia um quadro da beleza do Nilo que não é possível dar-lhe nem por palavras nem por imagens.
Ainda assim, escrevo. Escrevo na esperança de que as ideias fluam mais escorreitas que o espalhamento da tinta na tremura das mãos a ensaiar a pintura das cores.
Escrevo e trauteio com desafinada distração:

“Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho…” (*)

São milhares os egípcios de um e outro lado das margens férteis do rio celebrando o ato criador de Atum, o deus primordial que, masturbando-se, gerou do seu sémen os outros deuses que o ajudaram a criar e governar tudo o que existe. O fluxo do Nilo é, assim, parte da ejaculação de Atum, e portanto, todos, incluindo o rei, devem contribuir para manter o rio vivo. Um ritual de fertilidade que se repete a cada ano e a que todos se sentem obrigados. O frenesim é imenso, a agitação grande e a excitação maior. Primeiro o faraó.
Depois, eu, a passar pelas brasas num assarapantamento estremunhado à cata da enurese juvenil onde era suposta a polução adolescente. Felizmente foram todos para a festa. Retomo paulatinamente o trauteio e a viagem pela fita do tempo, em velocidade de cruzeiro. Por este rio acima. Uma viagem que, neste espaço, nos transporta para uma civilização extraordinária e um tempo longínquo de 5 milénios atrás.
Um cálculo simples, agora que recuperei toda a lucidez da razão, diz-me que terei de percorrer 20 anos em cada quilómetro de rio, o que atenta a marcha lenta do barco e (como ficou demonstrado), a queda para me evolar, não se afigura tarefa de gigante sobretudo se comparada com a construção das pirâmides. Para não parecer simplista direi que é sobretudo um desafio estimulante e uma experiência do outro mundo.
De tal modo que, um Cruzeiro no Nilo deveria constituir mandamento de cidadania, a concretizar pelo menos uma vez na vida, a par da peregrinação a Meca, à Terra Santa ou, em Lisboa, à Catedral da Luz. Mesmo ficando por resolver dilemas existenciais tão relevantes como saber se primeiro está a obrigação ou a devoção ou, se é a obrigação que faz a devoção ou a devoção que determina a obrigação. Como quer que seja, salvaguarda-se por epidérmica aversão ao dogma, que não é obrigatório que todos plantem uma árvore, façam um filho ou escrevam um livro. Alternativamente, pode-se regar, adotar ou ler.
Assim sendo, minha amiga, mesmo que me fosse agradável a sua presença, não precisa de vir a correr para um Cruzeiro no Nilo. Mais ainda porque sei do seu encantamento pelo rio da aldeia que cruza com amiudada devoção rumo à Capelinha do Senhor do Cruzeiro. E porque, definitivamente, o Nilo não é o rio que corre pela sua aldeia.
Pelo que, deixe-se ficar posta em sossego no idílico remanso da casa, a fruir o aconchego quente da lareira e a crepitosa iridescência das brasas a fumegar saudades dos serões nas madrugadas adentradas, enquanto relê e desfia com a fina delicadeza do linho e a sábia ternura de sempre, os versos e as imagens que lhe envio daqui

Nilo: Por este rio acima | Cruzeiro no Nilo | Egito .

(*) Por Este Rio Acima – Fausto

 

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