Postal de Sófia, Bulgária

Cara Amiga Sofia,
Devo declarar-me rendido à sua firme sabedoria e confessar-lhe que tinha razão em não vir. Não que, evidentemente, a sua companhia não me fosse agradável, mas exatamente porque, em não a tendo, tornou-se-me claro, se claros são os horizontes destes destinos, ser mais penosa a omnipresença da sua ausência do que a efetiva ausência da sua companhia. Ao assumi-lo assim como um desabafo, numa rebuscada discorrência filosófica, não sei se me coloco na órbita serena da sua condescendência ou na rota acelerada da sua ira. Como quer que seja, desejo sobretudo não a ter confundido. Sequer perturbado o sereno recato do recolhimento a que decidiu votar estes dias. Semelhantes provações deveriam ser desnecessárias porque injustas, ainda que, por vezes, mesmo que paradoxalmente, pareça imperativo sairmos d’ O Mundo de Sofia para descobrirmos o pequeno universo onde nos achamos perdidos.
A solidão que grassa por aqui, marca como um golpe. Não há língua que se entenda nem linguagem que prove, que até a mais universal delas parece tornar a solidão mais só!
Mas fez bem em não vir minha Amiga porque, estou certo, não se daria especialmente feliz por aqui. Colocaram Santa Sofia num pedestal, coroada de poder com um laurel de fama e uma coruja de sabedoria, no exato lugar onde antes repousava um monumento a Lenin. Imagine só! E, lamento dizer-lhe, já não há passadeiras vermelhas! Apenas uma via principal calcetada de amarelo, que concita a patética fascinação das gentes. Um amarelo como o da Carris… pra-lá-pra-cá-pra-lá, nem carne nem peixe, nem quente nem frio. Chega-se, assim, sem fama nem glória. Sem que se perceba o mais ténue dos entusiasmos ou a mais formal das deferências de acolhimento. Chega-se anonimamente. Desenxabidamente. Na rua, os circunstantes de cabeça baixa na abismação do amarelo. Nos templos, igrejas, catedrais, sinagogas, mesquitas, os devotos de olhos postos nas alturas a transportar as preces para lá do céu das abóbadas.
Como vê, excetuados os efeitos colaterais sobre o meu bem estar, não merece a pena, nem por um segundo, lastimar-se por ter ficado. Para tanto, bastarão os meus queixumes a perorar a minha solidão ou, se quiser, a lamentar a sua ausência. O que seria exatamente o mesmo se o mesmo fosse para ambos.
Aproveite, por isso, para prolongar por mais uns dias o estado venturoso a que se confinou. Deixe-se, pois, ficar assim, “posta em sossego”, no recato do seu recolhimento, na discreta redoma da sua meditação, na aventurosa filosofia do seu mundo, Sofia.
Quando de novo se abrir ao mundo das minhas divagações, navegaremos juntos por
Sófia que ver que fazer em Sófia | Bulgária .

 

 

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