Postal de Belgrado, Sérvia

BELGRADO

Meu Caro,
Tanto quanto é permitido a um aprendiz de escarafunchador de parentescos como este seu amigo, julgo saber que, tirante as longínquas trilobites ou os distantes primatas, tudo aponta para que sejam os Celtas a encimar olimpicamente o topo da minha árvore genealógica.
A dado momento da visitação ao Museu de História de Belgrado, o guia reverbera com a douta eloquência de um lente, terem sido os celtas os fundadores da cidade, a que deram o nome de Cidade Branca… Sem uma explicação para a cinematográfica(*) designação da urbe e ignorando, sem arrependimento, a presença na audiência de um seu dileto descendente, alcandorado assim no pedestal de uma gesta a que nem a memória genética cuidou de reservar lugar! (Nada que uma boa dose de água benta não resolva!)
Quando se olha a cidade e se mergulha na sua história, constata-se que pouco resta da imaculada brancura que terá impressionado os meus antepassados.
Vieram os romanos, depois os sérvios, depois os otomanos, os alemães, os russos, a Nato, tantas guerras, cada vencedor garantindo que na nívea brancura que cobria a cidade, havia um trilho branco que indicava o caminho a seguir, o caminho certo, verdadeiro, único, que todos tinham de fazer e descobrir fechando os olhos à ofuscante luminosidade do branco. Um trilho branco sobre fundo branco, resultante da mistura em proporções adequadas de ideologia e religião. Uma receita de convento e quartel cujo segredo está no fumo branco da explosão da Verdade!
Como na Arte, de Yasmina Reza. Três amigos de longa data, discutem até à fronteira da inimizade, a compra, por um deles, de um quadro branco, completamente branco, com umas riscas brancas transversais, visíveis apenas se fecharmos ligeiramente os olhos. “Tu deste 30 mil euros por esta merda?”.
Belgrado, a Cidade Branca, capital da Sérvia, ex-capital da ex- Jugoslávia, foi ao longo da sua longa história sucessivamente ocupada, construída, destruída, conquistada, perdida por quarenta exércitos, reconstruída das cinzas outras tantas vezes.
Alguns dos que de várias formas a foram bombardeando, estão na linha da frente dos que agora distribuem loas e encómios ao espírito das gentes e à boémia de Belgrado, que gasta e se diverte à tripa-forra como se não houvesse amanhã. Sendo certo que o mais provável era que não houvesse. Hábitos sociais aprendidos na lógica da guerra das armas e da inflação, que esvazia de sentido a vida e de substância o salário, e aguça pelo medo e a incerteza, mecanismos básicos de sobrevivência.
O caminho para o céu é feito de muitas provações. E o que releva delas é que Belgrado, a Cidade Branca, é agora a melhor noite da Europa, apesar de Paris, Londres, Berlim, sem perder de vista Dublin, Madrid, Lisboa, ou Porto, e até que Atenas esteja pronta para ressuscitar na anestesia dos copos da bebedeira da austeridade.
Irei, por isso, aproveitar a última noite por estas bandas para afogar as desgraças nos copos da boémia, até que a manhã da capital Sérvia cubra de luz a Cidade Branca.

Belgrado que ver que fazer em Belgrado | Sérvia

(*) A Cidade Branca, drama psicológico escrito e realizado por Alain Tanner, numa coprodução portuguesa, suiça e britânica, premiado com o César de melhor filme francófono.

 

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