Postal da Bósnia

BÓSNIA

Estimado Amigo,
Espero que não estranhe a minha escolha deste postal para lhe apresentar esta terra mártir da Guerra da Bósnia. A morte como a vida são faces de uma mesma realidade, e esses rostos são aqui bem evidentes. De tal modo que, me sinto mais que nunca precisado dessa catarse redentora em que empenhamos arrastados serões discorrendo quais franco-pensadores. Mais ainda porque, no afã de conhecer e descobrir este torrão dos balcãs, sobra-me em cansaço físico acumulado o que escasseia em disponibilidade para tonificar as meninges.
Sendo que, em bom rigor, do que me queixo, não é da arrastada fadiga de quem se propõe palmilhar quilómetros à descoberta. O que, por aqui, é verdadeiramente doloroso, que pesa até à medula e se carrega como uma fardo a pesar na consciência coletiva, são as marcas da barbárie deixadas pela Guerra e a implacável omnipresença da morte, a ressuscitar o ABSURDO.
Absurdo que tem a marca e a dimensão da humana estupidez, da mais funda irracionalidade, da bestialidade mais besta que a das bestas.
Porque as centenas de milhares de mortes assinaladas nas tabuletas e nos epitáfios de 1993, que contamos nos cemitérios improvisados em antigas praças no meio das cidades, nos montes e vales em redor das aldeias, ou nas terras a ladear as estradas do conflito, não foram o resultado de causas naturais, mas a explosão brutal e violenta do ódio incontinente. Um ódio cego, que cegamente se espalha entre irmãos e vizinhos, em atrocidades, massacres, bombardeamentos que explodem com estrondo de morte nos hospitais, nas creches, nas escolas, nos mercados, nas praças, na intimidade dos lares, na dignidade das pessoas.
Sabemos ser a finitude uma condição básica da vida; e uma impossibilidade, os homens chegarem a deuses. É, pois, absurdo, que o poder sobre a vida, ou o uso da morte como arma de poder, esteja nas mãos dos homens; e que, os deuses condenem os mortais à condição de Sísifo, carregando uma e outra vez a paz petrificada monte acima, de cada vez que ela resvala inexorável monte abaixo.
Dado o mote, não falta, como vê, matéria bastante a preencher a minha vontade de regressar o quanto antes às saudáveis rotinas da dialética, sabendo como sei que igualmente não desperdiça a oportunidade de uma boa conversa.
Juntaremos a minha urgência de catarse ao seu bisturi de exegeta; convocaremos Albert Camus e o seu Mito de Sísifo, também Miguel Torga e a sua poética do herói do absurdo; ajuntaremos espirituosa bebida para “molhar a palavra”; e discorreremos filosoficamente sobre a condição humana, a vida e a morte, o Absurdo que dá substância ao Mito e enforma a Realidade, e sobre essa impossibilidade material de chegarmos à condição de deuses mesmo quando a metafísica parece abrir-nos as portas do Olimpo!
Até lá, deixo-o entretido com estas notas de viagem:

Sarajevo que ver que fazer em Sarajevo | Bósnia

Mostar que ver que fazer em Mostar | Bósnia

 

 

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