Postal de São Miguel, Açores

São Miguel, Açores

Caro Amigo
Não esqueci o seu pedido insistente para lhe enviar notas e impressões sobre a maior ilha do arquipélago dos Açores. Um dos nove cumes das montanhas do lendário reino da Atlântida que teriam ficado acima da superfície das águas revoltas dos mares em fúria, na sequência de um castigo dos deuses para conter os desvarios dos atlantes.
Tudo isto antes de Abraão e Maomé… Pelo que, terá sido sempre assim!
Vendo bem, que posso eu acrescentar à sua crença que não tenha já sido dito por Platão nos seus diálogos: “Timeu ou a Natureza” e “Crítias ou a Atlântida“?!
No cume da Lagoa do Fogo, como no alto da Boca do Inferno, a mil metros de altitude, sinto-me, não como Atlas condenado a carregar o céu para sempre, mas abençoado pelos deuses por estar tão próximo dele.
E, talvez porque daqui é tão magnífica a dimensão do deslumbramento quanto a ilusão de poder, por momentos vi-me empurrado para uma tentação do demónio. O que me leva a supor que, estando o céu tão perto, longe não andará o inferno.
Dentro do grande vulcão que deu à luz o Vale das Sete Cidades, ali mesmo onde uma princesa de olhos azuis e um pastor de olhos verdes choraram o derradeiro encontro de cujas lágrimas haveriam de formar-se as Lagoas Verde e Azul, vive Eufémia, a bela filha de Atlas, neta de Júpiter, que terá vindo do outro mundo depois de para ele ter sido enviada por Neptuno como punição pela recusa em casar com um dos seus filhos.
Perco-me horas a fio a descortiná-la por entre as densas janelas de nevoeiro. Um nevoeiro misterioso, feito de mito e lenda, que se esvai, se adensa, oculta e desvenda, preenche e inunda de etéreas emanações a idílica porção de paraíso que nos sustém e nos envolve. Numa quietude e num silêncio magníficos, mesmo se sob os nossos pés crepitam e borbulham ameaçadores mantos de lava, águas ferventes, caldeiras, fumarolas e geisers.
Como Eufémia, os homens aprenderam a viver aqui em estreita comunhão com a Natureza que reúne num casamento harmonioso o que os deuses não conseguiram juntar. As águas termais, como as altas temperaturas que se acumulam nos buracos da terra onde se preparam os famosos cozidos dos Açores, farão tanto pela minha espondilose recalcitrante como pela sua irreprimível gulodice! Que igualmente alimenta com lendas e mitos o seu imaginário prodigioso.
Talvez fosse inevitável o eflúveo incontinente de magma das profundezas dos oceanos para construirmos a Atlântida… e um concílio dos deuses para a afundarmos. Talvez.
Talvez fossem necessárias as lágrimas de uma princesa de olhos azuis e de um pastor de olhos verdes para nos deslumbrarmos com o espetáculo magnífico de uma lagoa de duas cores. Talvez fosse indispensável a morte e ressurreição de Eufémia para o nascimento e vida do arquipélago. Talvez.
Por certo, tenho apenas que as lendas e os mitos são tão indispensáveis ao imaginário popular quanto as emanações sulfurosas ao cozido das Furnas que, para meu deleite e pirraça sua, irei degustar de seguida. Como compensação, deixo-lhe as notas mais relevantes deste périplo pelas terras perdidas da Atlântida no meu achamento dos Açores:

Roteiro São Miguel – Açores

O que ver em Ponta Delgada o que fazer – São Miguel, Açores

O que ver em Sete Cidades o que fazer – São Miguel, Açores

O que ver em Furnas o que fazer – São Miguel, Açores

Boas viagens! Até.

 

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