Regoufe | Drave | Gourim – Arouca e S. Pedro do Sul

Um convite simpático, a que prontamente acedemos, colocou-nos na senda de Regoufe, de Drave e de Gourim.

REGOUFE, DRAVE, GOURIM: Montanhas Mágicas

O percurso pedestre pelas Montanhas Mágicas, que juntou as Câmaras Municipais de Arouca e de S. Pedro do Sul e as suas gentes, rompe fronteiras e alarga territórios por mais recônditos e inóspitos, visando a promoção do turismo sustentável com base no enorme potencial das duas regiões.

Um potencial que se nos impõe desde logo pela extraordinária beleza da paisagem a desenhar montes e vales de linhas e cores magníficas, que se estendem a perder de vista pelos maciços montanhosos da Freita e de S. Macário.
O que só por si bastaria para darmos por bem empregue o tempo que dedicamos a estas paragens!

Mas, há mais. Muito mais. Da afabilidade das gentes, à história e estórias, tantas vezes curiosas, das pessoas e dos lugares. Para além, claro, do saudável convívio que a Natureza proporciona a quem com ela caminha. Como veremos.

REGOUFE aldeia mineira no Geoparque de Arouca

À entrada da aldeia a sinalética indica-nos que estamos em Regoufe, no Geossítio 22 – G.22, e numa área mineira desativada.

Mas antes de metermos pé ao caminho, um pouco mais.
Regoufe pertence à freguesia de Covêlo de Paivô, concelho de Arouca, distrito de Aveiro.

Geossítio é um sítio geológico especial integrante de um Geoparque, no caso, o Geoparque de Arouca.

Um Geoparque caracteriza-se por possuir um património geológico de excecional importância reconhecido pela Rede Europeia e pela Rede Global de Geoparques da Unesco, visando a geoconservação, a educação para o desenvolvimento sustentável e o turismo.

Enriquecida a bagagem e aguçada a curiosidade, vamos dar os pés ao caminho e a palavra à Natureza.

A aldeia parece cair em cascata sobre o vale como se fosse um presépio.

E é assim que de facto se nos revela quando a olhamos do ponto mais alto do monte a que se encostou.

Por trás, do outro lado do monte, a mina desativada, concessionada a empresários ingleses durante a II Guerra Mundial, onde chegaram a trabalhar 1000 pessoas na extração de toneladas de volfrâmio para fabrico e enriquecimento do armamento das forças aliadas.

A descida para o vale e o miolo da aldeia, proporciona-nos vistas únicas, dos prados, dos campos de cultivo, dos socalcos a evoluir sobre a Serra da Arada que, de tão impressivas, (quase) dispensariam o irresístivel registo fotográfico.

E, por aqui, como podemos testemunhar, a tradição ainda é o que era!
As flores amarelas, “maias”, “maios” ou giestas, colocadas nas portas, janelas, fechaduras das habitações e dos aidos da gadeza, na noite de 30 de Abril para 01 de Maio, para afugentar os males… não vá o diabo tecê-las!

Logo adiante, a seguir à pequena capela dedicada a Sto Amaro, a sinalética dos percursos, e a informação do caminho para Drave, à esquerda, a 4 Km daqui.

Em alternativa, seguimos em frente, atravessamos a pequena ribeira, e torneamos o monte por caminho de pé posto, ora consistente ora pedregoso, de horizontes magníficos.

Para trás fica Regoufe, de casario em cascata sobre a encosta, águas cristalinas, prados verdejantes.

No caminho, alguém observa que lá ao longe, nas proximidades de Rio de Frades, a cerca de 5 Km de Regoufe, existe uma outra mina de volfrâmio, desativada, que foi explorada pelos alemães.
É como se, de repente, o mundo coubesse todo aqui!

Durante a II Guerra Mundial, este terá sido o único lugar do planeta onde ingleses e alemães conviveram pacificamente, extraindo o minério necessário à produção do armamento com que se combatiam!

DRAVE aldeia desabitada no Geoparque de Arouca

A uma subida aceitável segue-se prolongada descida até Drave. E à medida que vamos descendo, por entre a magnífica silhueta dos montes, Drave vai-se insinuando e exibindo a sua vetustez, entalada entre a Serra da Freita e de S. Macário, rodeada de exuberante e colorida vegetação primaveril onde pontificam a urze e a carqueja.

No seu trajeto pela aldeia até ao rio Paivô, a ribeira de Palhais, de águas límpidas e cristalinas e pequenas lagoas a convidar a um banho purificador ou a momentos de relaxamento nas suas margens refrescantes, acrescenta beleza e bucolismo à magia do lugar.

Do casario escuro de xisto, destacam-se a capela de N. Sra da Saúde, de meados do séc. XIX, e o solar dos Martins, morada da família de que há registos desde o início do séc. XVIII.

Por entre as ruelas irregulares e pedregosas, desgastadas pelos rodados dos carros de bois, vão-se descobrindo as ruínas das casas e o que nelas resta de fornos, lagares e alfaias, derradeiro testemunho da vida na aldeia.
Desabitada desde o ano 2000, sem água e sem eletricidade, Drave tem vindo a ganhar nova vida com a inclusão nos Roteiros Pedestres – PR14, com o interesse e a visita crescente de muitos forasteiros, e com a presença e atividade dos escuteitos que aqui instalaram um centro, realizando encontros regulares e dedicando-se à recuperação de algumas das casas.

À saída de Drave, a organização instalou um ponto de abastecimento, com água e fruta, importante para repor líquidos e reservas energéticas antes de iniciarmos a subida, de dificuldade média, até ao cruzamento para Gourim.

O caminho de terra batida e cascalho miúdo, envolve-nos de quando em vez em poeira que se solta a cada sopro de ventania, não suficiente, contudo, para nos toldar a vista ou a luz radiosa que se projeta sobre os montes e vales num quadro magnífico de luz, penumbras e sombras, a realçar os verdes, roxos e amarelos da vegetação.

Já no alto, à nossa direita, o caminho para Gourim, a cerca de 2 Km.

GOURIM aldeia ressuscitada – Casa Margou

A aldeia que permaneceu desabitada durante 25 anos, desde 1986, pertence à freguesia de S. Martinho das Moitas, concelho de S. Pedro do Sul, distrito de Viseu.
Alguns metros adiante, do lado direito, um afloramento rochoso sinaliza a entrada de uma mina desativada, testemunho de que, em tempos, como vimos, a extração de volfrâmio marcou muita da atividade da região e também de Gourim.

O caminho faz-se em ziguezague por terra batida e pedra solta.
A paisagem em redor apresenta-se, em geral, inóspita e árida, a recuperar dos efeitos devastadores do incêndio que no último agosto empobreceu a região.
Ainda assim, e porque por aqui a Natureza possui a força e o vigor da regeneração, não deixamos de ser presenteados com imagens de uma incrível beleza!

Sobre o cabeço sobranceiro à única casa habitada da aldeia, a pequena capela de Sto António, em fase adiantada de recuperação e restauro, que assim, em breve, fará também parte das memórias vivas de Gourim.

Ao fundo, logo abaixo, a Casa Margou – acrónimo feliz que justamente funde Maria e Gourim.
Maria do Patrocínio (cujo testemunho de vida foi publicado no livro que abordamos no post  Nos Caminhos de Viseu – MEMÓRIAS e FEMINISMOS – Os lugares e os saberes , a proprietária, filha mais nova de onze irmãos, meteu mãos à obra, reconstruiu a casa que fora berço da família e da sua meninice, e fez de Gourim e da Casa Margou – Lugar de Reencontro.

Aberto, aberta a todos os que, como nós, vêm por bem e privilegiam o Silêncio e a Natureza.

Descendo o pequeno monte, por entre a vegetação de carvalhos e sobreiros que resistiu ao fogo, e transpondo o riacho de águas límpidas que a atravessa, eis-nos no ponto de chegada e reencontro.

Com a simplicidade de um nome grande, Maria, que é em si mesma uma força da Natureza, recebe-nos no largo fronteiro à casa com uma breve sessão de yoga do riso!

O cenário é único. Pela serenidade, a tranquilidade, a paz, que chega e se projeta no cruzamento de montes, vales e montanhas em redor, a esboçar horizontes indefinidos no espaço que se inventa.E como que por artes outras, a adesão espontânea proporciona um momento inesperado e divertido de descontração e relaxamento, de alegria e riso que contagia mesmo os mais resistentes…

… ou os mais esfomeados! Que é hora de repor energias!

Exercitado o corpo, convocado o espírito, espera-nos almoço volante, variado, recheado de surpresas e bom gosto, rico de sabores e degustações da região, preparado e servido com a competência, o saber e o profissionalismo d’O Cortiço, de Viseu.

Resta-nos registar a simpatia e a amizade dos que nos receberam e connosco partilharam tão bela jornada de caminhada e convívio.
E subir a encosta até ao alto de Gourim, onde nos aguarda o transporte de regresso.

Há quem diga que não se deve voltar aos sítios onde fomos felizes!…
Mas… se já nos consomem as saudades destas terras e gentes!…

… Até!

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